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Preços de insumos disparam e representantes da construção reagem

Na segunda-feira (14), CBIC apresentou ao governo federal “evidências de abuso” praticado por fornecedores

Henrique Cisman

16/09/2020

Há pelo menos dois meses, a alta nos preços dos insumos utilizados na construção civil preocupa construtoras, incorporadoras e representantes do mercado imobiliário. No mês passado, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) medido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV) avançou 0,72%, com destaque para o encarecimento de materiais e equipamentos, cujos preços subiram 1,76% em relação a julho, quando já haviam aumentado 1,12%.

Nesta segunda-feira (14), a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) entregou ao governo federal documento “que reúne evidências sobre abuso no aumento do preço de materiais de construção durante a pandemia”.

Na avaliação do presidente da CBIC, José Carlos Martins, foi criado um desequilíbrio artificial por parte das fornecedoras dos insumos. Diante da insegurança inicial devido à pandemia, em março, “foi gerado um falso desabastecimento, que foi sendo aproveitado pelos fornecedores para recuperar preços”, disse.

Segundo levantamento realizado pela Smartus no início do mês de junho, a produção de insumos para a construção registrou queda de 34% em abril, o que indicava uma desaceleração da atividade no setor, desmentida pelos números alcançados nos meses seguintes. 

Em nota publicada em seu site, a CBIC afirma que para comprovar a narrativa, cruzou informações presentes em diversos documentos, cotações e declarações para acionistas de grandes indústrias, além de correspondências de diferentes fabricantes “comunicando aumentos idênticos nos preços dos mesmos produtos, simultaneamente, para a mesma região”. 

Em julho, Abrainc (Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias), Secovi/SP (Sindicato da Habitação), Sinduscon/SP (Sindicato da Construção) e Sintracon/SP (Sindicato dos Trabalhadores da Construção) já haviam manifestado conjuntamente serem contra os aumentos de preços, considerados “inadmissíveis e inoportunos”, segundo nota institucional. 

Alta na demanda justifica disparada?

De acordo com a pesquisa de comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas de materiais de construção foram as que registraram maior crescimento depois de móveis e eletrodomésticos em agosto, com resultado 22,7% maior na comparação com o mesmo mês em 2019. 

O Sindicato Nacional da Indústria do Cimento revelou que as vendas do insumo no Brasil aumentaram 19% em julho em relação ao ano passado. A Smartus entrou em contato com a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), mas não obteve retorno sobre o aumento dos preços até o fechamento da matéria. 

No relatório da inflação oficial para o mês de agosto (IPCA), o IBGE informa que o cimento e o tijolo, dois insumos básicos na cadeia de construção, ficaram 10,67% e 16,86% mais caros desde janeiro, respectivamente. Somente no mês passado, o preço do cimento saltou 5,42% e o do tijolo, 9,32%.

Segundo o IBRE/FGV, as maiores influências de alta do INCC em agosto foram de condutores elétricos (8,08%), cimento comum (5,71%), tijolo e telha cerâmica (3,3%) e vergalhões e arames de aço ao carbono (2,35%). Entre julho e agosto, a inflação registrada pelo Sinapi (Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil) saltou de 3,33% para 3,78%.

Condutores elétricos e cimento puxaram alta do INCC em agosto. Elaboração: IBRE/FGV

Considerando a variação mensal do INCC, as duas maiores altas foram registradas justamente em julho e agosto (1,17% e 0,72%). A CBIC classifica o aumento como “um movimento completamente alheio à realidade inflacionária do país”. Nos últimos 12 meses encerrados em maio, o INCC havia variado 4,02%. Entre junho e agosto, o indicador variou 3,80%, segundo a FGV. 

Dentre as propostas apresentadas pela CBIC à Secretaria de Advocacia da Concorrência e Competitividade do Ministério da Economia nesta segunda-feira (14), constam “a redução da capacidade ociosa com a reativação dos fornos que estão inoperantes e a limitação da cota de exportação enquanto os fornos não voltarem a operar nos mesmos níveis de março”, revela a nota. 

Superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu afirma que não faz sentido para os fornecedores retomar a produção a todo vapor quando o aumento da demanda está vindo de pequenos consumidores e não mais de grandes empreiteiras e construtoras, segundo publicado pela CNN Business. 

Consequências para o setor

No documento entregue ao governo federal, a CBIC assinala que o cenário de aumento dos preços e desabastecimento dos insumos terá consequências graves, como desemprego, aumento do custo das obras públicas e inviabilização do programa Pró-Brasil, criado para impulsionar obras em infraestrutura.

No mercado imobiliário, a entidade prevê aumento do custo dos imóveis populares, gerando necessidade de elevar os subsídios. “Isso afetará o apetite para novos lançamentos. Para as obras em andamento, como não há correção sobre os valores desembolsados pela Caixa, nossa preocupação maior é pelo impacto no desequilíbrio contratual e eventuais paralisações”, afirma o vice-presidente de Habitação da CBIC, Carlos Henrique Passos.

Ainda, outro impacto pode ocorrer com a redução dos lançamentos de imóveis no 2º semestre, no qual há grande expectativa após o represamento de novos projetos no 1º semestre. “A grande preocupação, no momento, é que os incorporadores, em função desses aumentos inesperados, passem a duvidar da viabilidade dos empreendimentos a serem lançados”, explica Celso Petrucci, vice-presidente da área de Indústria Imobiliária da CBIC.

Assim como fez com o arroz, o governo federal estuda suspender temporariamente a tarifa de importação de insumos da construção para controlar os preços. Segundo fontes do Ministério da Economia, a definição deve ocorrer nas próximas duas ou três semanas.

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