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Notícias

Conceito de imóvel como serviço segue consistente na pandemia

Após queda inicial, taxas de ocupação de apartamentos voltam ao patamar pré-crise

Daniel Caravetti

18/09/2020

Visando ter um ativo que garanta segurança para o futuro, grande parte da sociedade brasileira ainda tem a aquisição de um imóvel como um objetivo de vida. Nas grandes cidades, contudo, realizar este sonho está cada vez mais relacionado com morar em áreas periféricas. Isso porque o número de pessoas que têm capital para comprar uma casa em uma localização privilegiada está cada vez mais restrito. 

Neste contexto, uma pequena parcela de brasileiros, liderada pelos jovens, já têm se acostumado com a ideia de abrir mão do sonho da casa própria para viver nos melhores bairros de uma metrópole. O conceito foi denominado imóvel como serviço, ou living as a service, em inglês.

Basicamente, ele consiste na desburocratização do aluguel, no qual o locatário é uma empresa e não é necessário ter fiador e inúmeras garantias. Os contratos são flexíveis e diversos serviços como mobília, internet e limpeza estão incluídos na mensalidade. 

Também está relacionado com o compartilhamento de espaços, o que reduz os custos e permite justamente que pessoas residam em localizações privilegiadas por um preço acessível. Dentro do conceito de imóvel como serviço estão incluídos modelos como co-living e student living. 

Essa tendência de residências temporárias nas metrópoles já foi identificada por três grandes incorporadoras do país. A Vitacon, através da Housi, a MRV, através da Luggo, e a Cyrela já têm operações para explorar o modelo. Inclusive, há duas semanas, a Housi protocolou um pedido de IPO (oferta pública inicial) na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

A pandemia impacta o conceito de imóvel como serviço?

A partir da chegada da pandemia, contudo, surgiram dúvidas sobre a efetividade do modelo daqui em diante. Isso porque muito se comentou sobre as pessoas passarem a valorizar ainda mais a importância de possuir uma residência e criarem uma objeção ao compartilhamento de espaços. 

Contudo, dois especialistas do mercado imobiliário não acreditam que a situação atual é capaz de enfraquecer o conceito de imóvel como serviço. Romeo Busarello, vice-presidente de marketing da Tecnisa, é um dos que defende este novo modelo de negócio no mercado, ainda que a companhia não trabalhe nesta direção.

“A gente não pode achar que tudo vai ser alterado. Tem mercado para o imóvel como serviço, principalmente nos grandes centros. A parcela que se identifica com esse modelo pode ser reavaliada por conta da pandemia, mas com certeza segue justificando operações nessa direção. Acho que, atualmente, pouco menos de 10% do mercado se identifica com esse estilo de vida”, diz em entrevista à Smartus.

“Inclusive, existem praças, como Nova York, onde o modelo já funciona bem. Está ligado há uma sociedade de muita mobilidade, o que algumas capitais brasileiras têm se tornando. O problema do Brasil é que há uma resistência em alugar um imóvel e deixar o dinheiro no banco por conta do confisco da poupança que ocorreu em 1990. É algo passado de geração para geração e que demora para se apagar“, completa.

O executivo da Tecnisa garante ainda que o modelo deve ter sofrido um impacto inicial da pandemia, com jovens voltando a morar com os pais, mas nada que comprometa esta tendência para os próximos anos. Esse desempenho acabou confirmado pela Yuca, plataforma que trabalha com o conceito de imóvel como serviço oferecendo apartamentos compartilhados para jovens profissionais na capital paulista. 

De acordo com o cofundador e head de Real Estate, Rafael Steinbruch, a empresa tinha 95% de ocupação no período pré-pandemia, mas viu o indicador cair para 78% em maio. No mês seguinte, em compensação, a taxa de ocupação foi de 93% e segue nesses patamares até o momento. O executivo ressalta que as inscrições no site cresceram mais de 300% durante a pandemia. 

“As pessoas continuaram com a gente. Não enxergamos a perda da força do conceito de imóvel como serviço. Nestes últimos meses, inclusive, temos visto um interesse maior, por conta de maiores incertezas profissionais. Não precisar de investimento inicial, ter um contrato de apenas seis meses e mais flexibilidade pode ser interessante para quem está nesta situação”, destaca para a Smartus.

O especialista entende ainda que a pandemia pode beneficiar o modelo de negócio no longo prazo. Isso porque a consolidação do home office por parte de muitas empresas permite que as pessoas não fiquem mais presas a um imóvel próximo ao local de trabalho.

“[O home office] permite que as pessoas se desprendam desse vínculo com o trabalho e mudem mais vezes, experimentem novos bairros, tenham diferentes vivências. Até porque os apartamentos são mobiliados e a mudança não é um processo burocrático”, diz.

Steinbruch também revela que existem muitas empresas de tecnologia preocupadas com o aumento de ansiedade e depressão dos colaboradores na pandemia, visto que perderam o contato diário com outras pessoas. Neste sentido, algumas delas têm feito parcerias com a Yuca para que alguns colaboradores vivam em um apartamento compartilhado e possam ter mais bem-estar.

Adaptações dos apartamentos à pandemia

De acordo com o executivo, a chegada da pandemia exigiu alguma adaptações nos apartamentos oferecidos pela Yuca. Quanto ao trabalho remoto, Steinbruch afirma que todos os quartos já continham uma escrivaninha antes da pandemia, mas a internet dos apartamentos foi reforçada.

Já na parte de cozinha, a Yuca teve que aumentar o número de prateleiras, dispensas, refrigeradores e freezers, em virtude de os clientes estarem fazendo muitas refeições em casa e precisando de mais espaço para estocar alimentos.

Se a limpeza já estava incluída no pacote mensal, foram disponibilizados mais produtos e criado um protocolo de higiene, com sapateira na entrada dos apartamentos. Sobre este controle, contudo, o cofundador da empresa ressalta que não é papel da empresa interferir no dia a dia dos apartamentos.

“Temos que ter em mente que aquele espaço é dos nossos clientes, não nosso. Devemos interferir o menos possível, pois a casa é deles. Se entregarmos a sala de um jeito e os clientes quiserem mudar, sem problemas. A questão é as pessoas se sentirem em casa e seguras”, afirma.

“Coletivamente, os moradores de um apartamento podem decidir por um sistema mais restritivo de higiene e de segurança sanitária, por exemplo. Neste caso, devemos ter o suporte para atender essas necessidade”, acrescenta.

Onde o imóvel como serviço é viável?

Atualmente atuando somente na cidade de São Paulo, a Yuca entende que o conceito de imóvel como serviço pode ser implantado em outros municípios brasileiros. “É bem-vindo em qualquer lugar, até pela redução de custo que oferece para o inquilino. Este, em um aluguel direto, pagaria o valor de varejo, enquanto a Yuca consegue o valor de atacado com as contratantes”, cita Steinbruch.

Como próximos passos de expansão, o especialista destacou Brasília, por conta do dinamismo, e o Rio de Janeiro, pela ausência de novos terrenos. Este fator, por sua vez, permite o reaproveitamento de prédios antigos em localizações estratégicas, podendo se tornar apartamentos coliving. 

Foto: Yuca

 

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